Domingo, Fevereiro 08, 2009
Dizer que a consciência está constituída como uma história é o mesmo que dizer que ela é uma geradora de mitos.
Nossa vida é mítica, pois ela está para nós exatamente como os mitos gregos, os romances e os filmes. Estamos dentro de uma história como uma personagem, mas aí é que está: nós nos vemos como uma personagem, nós nos reconhecemos na personagem, nós somos coerentes com a personagem, enquanto de fato não passamos de um complexo multicêntrico de padrões neurais. Em outras palavras: vivemos através da personagem, mas não somos a personagem. Nós somos de carne e osso, a personagem é virtual.
Para distinguir essa personagem do eu multicêntrico vou chamá-la de persona, a partir da terminologia junguiana.
O ser humano se orgulha de ser coerente, mas essa coerência será sempre em relação à persona que ele julga ser. Na verdade, nós nos esforçamos para que a persona seja coerente. Nós nunca o somos, embora geralmente não nos demos conta.
Isso me lembra a história de X., um sujeito que conheci, um bom homem, mas um bom homem mais porque não sabia dizer “não” do que por ser bom por natureza. A grande maioria das pessoas o admirava muito, exceto algumas poucas de um círculo mais íntimo que deparavam, vez ou outra, com uma desconcertante insensibilidade. Ele era ao mesmo tempo extremamente encantador e frio por dentro. Certa vez aconteceu de X. emprestar dinheiro para um sujeito sobejamente conhecido por nunca devolver os empréstimos que recebia. Os amigos se indignaram: “Como é que você empresta para um sujeito desses? Você nunca vai voltar a ver a cor do seu dinheiro”. X. deu de ombros e respondeu filosoficamente: “Se eu não emprestasse o dinheiro eu não seria X.”.
Quem conhecesse X. como eu saberia que, se não houvesse testemunhas, ele não faria o empréstimo. Agora, a partir do momento em que passou a existir pelo menos uma testemunha (a própria pessoa pedindo o dinheiro), ele não poderia mais negá-lo, senão ele não seria X.
Portanto, para X., o Bem não era impessoal, objetivo, como para Kant, mas fundador de uma relação transubjetiva que determinava o caráter de sua persona. O modo sujeito de X. era bom. Seu modo prático deslizava por entre as estruturas transubjetivas que constituíam sua persona como uma narrativa. Seu modo ideológico tendia a ser consistente com seu modo sujeito.
Assim como X, nós deslizamos, como práticos, por entre as estruturas transubjetivas que nos constituem. Os pilares, as referências de nossa história são as estruturas transubjetivas, geralmente justificadas por ideologias.
posted by Roberto Velloso Eifler |
5:01 PM
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Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009
Quando digo que o indivíduo está constituído como uma narrativa quero dizer que a consciência funciona como uma história. O próprio António Damásio, em O Mistério da Consciência, usa a palavra história para expressar a maneira pela qual a consciência humana percebe a si mesma:
“Contar histórias, no sentido de registrar o que acontece na forma de mapas cerebrais, é provavelmente uma obsessão do cérebro e talvez tenha início relativamente cedo, no que concerne tanto ao processo evolutivo como à complexidade das estruturas neurais necessárias para criar narrativas. Contar histórias precede a linguagem, pois é, na verdade, uma condição para a linguagem, que se baseia não apenas no córtex cerebral mas em outras partes do cérebro, e no hemisfério direito assim como no esquerdo”.
Para uma topologia do indivíduo poderíamos usar muito bem os níveis de consciência definidos por Damásio, particularmente a distinção que ele faz entre self central e self autobiográfico. A sensação de continuidade da consciência é proporcionada pelo self central, enquanto a noção de identidade é dada pelo self autobiográfico. Eu só tenho a acrescentar que o self autobiográfico não é o todo homogêneo que pode parecer à primeira vista, mas um aglomerado de complexos (como gostava de dizer Jung) em que se destacam a instância do prático, a do sujeito e a do crente. Em outras palavras, o self autobiográfico é multicêntrico, com determinado número de padrões neurais comuns aos vários centros, dando a impressão de unidade. Todos temos a experiência de pessoas conhecidas que parecem “ter outra por dentro”. Os casos extremos são os de múltipla personalidade, já no campo da psiquiatria.
Por outro lado, a história a que me refiro não é exatamente a mesma de Damásio. Este fala de um relato imagético, não verbal, de sequências de eventos cerebrais, um relato próprio do indivíduo, ao passo que eu me refiro a uma história transubjetiva (envolvendo não só o indivíduo como o seu meio social), que poderia ser chamada de segunda ordem em relação à história de Damásio. De qualquer modo, só fiz a referência à obra de António Damásio para chamar a atenção para o arranjo funcional do cérebro, que está estruturado como contador de histórias.
posted by Roberto Velloso Eifler |
9:27 PM
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Domingo, Fevereiro 01, 2009
Acho que o item 56, que encerra o último post, é por onde devo recomeçar:
“Os seres humanos, que se pensam como indivíduos, são ao mesmo tempo práticos, sujeitos e crentes”.
Quando digo que o indivíduo é ao mesmo tempo prático, sujeito e crente, estou postulando que ele tem três personalidades, porque é como se tivesse três diferentes centros de ação dentro de uma única mente, considerando-se, ademais, que esses três centros de ação, como regra, não são coerentes entre si.
Não deixa de ser espantoso como o ser humano consegue pensar que é um só, isto é, que tem apenas uma personalidade, enquanto simultaneamente age como se fosse três pessoas diferentes, alternando as atitudes de uma para outra sem se dar conta disso e, pior, sem que os demais tampouco se deem conta, atribuindo as mudanças quando muito a coisas do tipo “humor” ou “temperamento”. É essa a magia da mente, a de dar a impressão de continuidade, de integridade, à nossa personalidade. A mente é única, mas “aquilo” que se pensa através dela não o é.
Essa ilusão de continuidade de si mesmo é que constitui o indivíduo como uma narrativa.
posted by Roberto Velloso Eifler |
3:24 PM
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Roberto V. Eifler


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