Segunda-feira, Janeiro 14, 2008
Enquanto dou andamento ao meu romance, vou postar algumas coisas que eu já escrevi. O texto abaixo foi publicado na coluna do Rogério Mendelski, no tempo em que ele estava na Pampa.
O MILITANTE DISCIPLINADO
Assim como o padre de passeata marcou os anos 1960 e a velhinha de Taubaté os anos 1990, podemos dizer que a primeira década deste século no Brasil vai ser a do militante disciplinado. Não que ele tenha surgido agora. Esse tipo sempre existiu e teve seu apogeu no reinado de mil anos do chamado marxismo-leninismo. Mas a História seguiu inexoravelmente o seu rumo, utopias e tragédias foram joeiradas pela peneira do tempo, só que militantes extraviados nos confins do mundo (leia-se Brasil) preservaram os rituais, mais ou menos como aqueles soldados japoneses perdidos numa ilha deserta que continuavam lutando contra os EUA sem saber que o Japão se rendera 40 anos antes.
O militante disciplinado é tão disciplinado, mas tão disciplinado que faz questão de provar sua fé no partido assumindo as missões mais difíceis. E o que é mais difícil para um militante puro do que meter a mão na sujeira? Então os militantes disciplinados aceitam – não só aceitam como exigem – as mais sórdidas tarefas com os olhos rutilantes de felicidade. Quanto maior a torpeza, maior a demonstração de fidelidade à causa.
Podemos imaginar o militante disciplinado na ante-sala do chefe, enquanto espera a delegação da tarefa. Em sua cabeça, como num liquidificador, fundem-se mil possibilidades. Será que terei de assaltar um banco? Seqüestrar uma criança? Degolar um brigadiano? Quando o chefe o chama, ele se decepciona. Nem sempre existem missões para um Hércules. O militante tenta argumentar: Mas nem invadir uma câmara municipal? Nem furar uma fila de aposentadoria? Nem roubar o pirulito de uma criança?
O chefe o consola: “É só levar uma mala, mas” – e faz uma pausa misteriosa – “tem uma coisa”. Os olhos do militante disciplinado se arregalam, seu coração dispara. O chefe abaixa a voz e aproxima a cadeira: “É dinheiro sujo”. O militante hesita, não querendo acreditar: “Mas, muito sujo?”. O chefe confirma gravemente: “Muito sujo”.
O militante abandona a sala abraçado à mala, chorando de alegria.
posted by Roberto Velloso Eifler |
6:22 PM
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