Domingo, Dezembro 30, 2007
Ganhei neste Natal os três volumes da Odisséia, de Homero, primorosamente traduzida por Donaldo Schüler em edição bilíngüe.
A Odisséia foi escrita cerca de 600 anos antes de Aristóteles, de modo que sua linguagem é relativamente arcaica em relação ao grego clássico, mas comecei a lê-la, devagarinho.
Começa assim:
“Ándra moi énnepe, moúsa, polútropon, hos mála pollá
plánkte, epéi Tróies hierón ptolíethron épersen.”
Que Schüler traduziu assim:
“O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos
males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra”.
E que eu traduziria assim:
“Ó Musa, canta-me o homem de múltiplas habilidades que tantos
males padeceu depois de arrasar a cidade sagrada de Tróia”.
O poeta pede à musa para contar a história de Ulisses.
A história de Ulisses é anterior a Homero — se é que Homero existiu — e deve ser muito importante na estruturação da cultura humana, porque até hoje é repetida em múltiplas variações (vide Duro de Matar 4.0 e O Ultimato Bourne).
Assim como Ulisses, os personagens interpretados por Bruce Willys e Matt Damon são polútropoi e, depois de muitas adversidades, conseguem superar todos os obstáculos, que podem ser deuses e monstros como também o FBI, a CIA e a NSA juntos.
Hollywood é a nova voz da Musa, cantando o mesmo mito épico da origem da civilização ocidental.
posted by Roberto Velloso Eifler |
10:27 PM
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Quarta-feira, Dezembro 26, 2007
Considerando que nunca vou descobrir a chave do Universo e, se descobrir, não vou conseguir transmitir a ninguém, estou interrompendo esta pesquisa biológico-filosófica e começando um romance.
Outra explicação é que eu seja um sujeito ciclotímico.
Para vocês terem uma idéia, aí vai a página inicial:
Tudo começou quando o doutor Gastão tentou beijar à força a enfermeira dentro do consultório. Ariane se livrou dele com um safanão e foi direto à supervisora, chorando. As demais funcionárias logo ficaram sabendo e correram até o posto de enfermagem para dar solidariedade e conhecer os detalhes.
Ariane era muito bonita e tinha uns olhos grandes que arregalava de propósito para chamar a atenção, fixando-os no interlocutor. Quando as amigas lhe censuravam isso, com aquele ciúme disfarçado de amiga, ela jurava que não fazia de propósito e, talvez, até acreditasse em si mesma, pois, afinal, as mulheres bonitas acabam perdendo a capacidade de distinguir o espontâneo do estudado em suas próprias atitudes.
Na verdade, Ariane não era enfermeira e sim técnica de enfermagem, como fazia questão de repetir Jurema, a supervisora, principalmente em horas como aquela, que serviam muito bem para expor aos olhos do mundo toda a diferença. Técnicas de enfermagem não passavam de garotas estabanadas que achavam que a maneira de segurar uma gaze poderia alterar as leis do universo. Além de segurar a gaze errado, flertavam com os médicos.
Mas Jurema tinha bom coração. Procurava passar adiante o que sabia e preparar as jovens técnicas para a vida. O que ela não aceitava, e que tinha se tornado sua grande discussão com Giovane, o diretor médico safado, era que as garotas usassem aquelas calças brancas justas, entrando-lhes pelo rego, o que emprestava aos corredores da Clínica um ar de footing de shopping. Giovane soltava sua risada catarrenta:
— Mas essas bundinhas são um santo remédio! Olhe os velhinhos lá na sala de espera, como arregalam os olhos!
Jurema achava aquilo um desaforo e não compreendia como o doutor Carlo, que era um homem sério, não exigia a troca dos uniformes. Infelizmente, pensava Jurema, Carlo tinha uma personalidade fraca e não sabia se impor ao irmão. Dizia-se que a Clínica só se tornara o que era graças à capacidade empreendedora de Giovane, mas Jurema não gostava dele. Era cirurgião, um bom cirurgião, o que não a impedia de espalhar à boca pequena a maldade de que, na Faculdade de Medicina, optavam pela cirurgia aqueles que não tinham vocação para médico.
— Por que tu não deste uma bofetada naquele velho sujo? — indignou-se Jurema. Como todas as feias, ela tinha um senso moral exacerbado.
Ariane a fitou chorando, sem entender. Não era uma questão de bofetada. Algo tinha se quebrado, uma regra, um limite, um dever ser, ela não sabia, só sabia que o mundo nunca mais seria o mesmo e se sentia extremamente indefesa.
— Eu não sei ...
— Tu não sabes de muitas coisas ainda, minha filha — resmungou Jurema, fazendo questão de pronunciar o esse da segunda pessoa porque era um dos detalhes que a distinguia das técnicas. Por dentro se remoeu de inveja da pele acetinada da outra, de seus grandes olhos, da incrível harmonia de traços que a tornavam linda sem nenhum esforço, o que parecia um acinte. Mas Jurema era prática. Engoliu a inveja — porque a vida era injusta mesmo — e decidiu aproveitar-se do escândalo para conseguir a troca do uniforme das garotas. Havia cerca de um ano trabalhando na Clínica, já aprendera os tortuosos caminhos do poder. Em vez de falar diretamente com o doutor Carlo, levaria o caso para Mateus, filho de Carlo, que auxiliava Giovane na direção médica mas era vinho de outra pipa. Mateus parecia gente boa como o pai. Precisava ainda de experiência, mas aparentemente não herdara a fraqueza de caráter do velho.
posted by Roberto Velloso Eifler |
9:46 PM
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Sábado, Dezembro 08, 2007
Encerrei o penúltimo post dizendo que iria falar de democracia e, no último post, tratei da diferença entre ciência e religião. Pareço dispersivo mas, de fato, a diferenciação entre pensamento puro e pensamento prático é uma preparação para a análise da democracia. O que está havendo é falta de método da minha parte, mas, afinal, isto aqui não é (ainda) um livro e sim um blog.
Estava eu matutando sobre a diferença entre ciência e religião quando dou com a reportagem sobre a segunda encíclica do papa Bento 16, a “Spe salvi”, recém publicada, e que pode ser lida na íntegra no site www.folha.com.br/073341. O que me chama a atenção na encíclica é que o papa, isto é, a visão cristã do mundo representada pelo papa, sabe muito bem o que é angústia.
Quando falo em angústia, estou me referindo à angústia existencial, à angst heideggeriana, ao que o Freud maduro chamou de Hilflosigkeit (desamparo), que não passam de palavras complicadas para expressar o sentimento de vazio, de falta de significado para a vida que está sempre à espreita de um vacilo de nosso otimismo e que pode assumir proporções desesperadoras.
Em sua encíclica, Bento 16 cita uma carta de Santo Agostinho em que este escreve que, na realidade, nós só queremos uma coisa: uma vida bem-aventurada, isto é, a “felicidade”, mas no fundo não sabemos o que desejamos. Sabemos que queremos uma coisa, mas não sabemos realmente o que queremos. Disso Agostinho conclui, intuitivamente, que, no fato de não saber, sabemos que alguma coisa deve existir. Ele chama essa espécie de pressentimento de “douta ignorância” (docta ignorantia), querendo expressar com isso que sabemos que deve existir algo que não conhecemos e que para isso nos sentimos impelidos.
Percebam que a linguagem religiosa de Agostinho quase repete a linguagem filosófica de Aristóteles, quando este último fala da inteligência humana (ho anthrópinos nous) sendo atraída pela inteligência supra-sensível (ho théios nous). E a linguagem psicanalítica, com todas as suas tecnicalidades, no fundo também fala da mesma coisa quando trata do desejo, só que dá um jeito de fazer desaparecer o objeto (o “algo” que queremos mas não sabemos o que é), deixando o desejante pendurado no pincel.
O fato é que as “grandes questões humanas” são poucas e sempre as mesmas, e as intuições de Agostinho e de Aristóteles estão mais próximas do fim do arco-íris que todo o esforço teórico de Freud, embora o “objeto perdido” de Freud ainda conserve uma coerência que se perde na “falta” de Lacan, uma ausência congênita que acompanha o sujeito até a morte.
A docta ignorantia pressente algo que é, afinal, constitutivo do pensamento e, portanto, da natureza: não existe efeito sem causa. Isso já foi demonstrado por Kant. Se o desejo existe, o objeto também existe. O que não podemos é confundir o objeto fenomênico com o objeto numênico. O objeto perdido de Freud remete a um objeto primordial. Dizendo de outra maneira: todo objeto fenomênico remete ao objeto numênico. O problema com Agostinho é que ele atribui ao objeto fenomênico (Deus) as qualidades do objeto numênico. Em outras palavras, Agostinho confunde a verdade revelada com a verdade em si.
Para facilitar o entendimento desses conceitos, vou reproduzir as Figuras 11 e 2, que esquematizam o númeno (N) e o objeto (O) ou fenômeno (F), primeiro com a imagem derivada da bateria e, segundo, com o circuito recursivo.
Figura 11
Figura 2
A partir dessas imagens, vou retornar no próximo post à análise da angústia e do desejo para chegar enfim à descrição do conceito de democracia, demonstrando que este blog não é afinal dispersivo e sim metódico, embora seu método seja ziguezagueante.
posted by Roberto Velloso Eifler |
7:21 PM
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Domingo, Dezembro 02, 2007
No último post, afirmei que o pensamento só se operacionaliza pelo antagonismo e que o antagonismo é antes posicional que proposicional. Isto é, só conseguimos pensar a partir de posições, sendo o conteúdo dessas posições (gremista ou colorado, direita ou esquerda) meramente circunstancial. Poderia ser qualquer outro. Será sempre qualquer outro.
Alguém contra-argumentaria que estou misturando coisas bem diferentes, que o futebol trata com símbolos enquanto a desigualdade de classes é real. O futebol, afinal, foi inventado, ao passo que a pobreza existe. Não haveria, portanto, como equiparar paixão clubística com visão social do mundo.
De fato, trata-se aqui de duas coisas diferentes, mas de outro gênero, cuja confusão é que gera os mal-entendidos. Refiro-me à divisão, tão velha quanto Kant, entre pensamento puro e pensamento prático. Essa diferenciação, crucial na história da filosofia, foi deixada de lado por muitas correntes posteriores, particularmente pelo marxismo, ideologizando definitivamente a filosofia. Chegou-se ao absurdo de se postular a figura do “intelectual orgânico” (um misto de teólogo e ativista).
O pensamento puro se refere à estrutura formal, posicional, da operação de pensar, e é autônomo em relação aos seus conteúdos. Ele é normativo, mas com relação ao “correto ou falso”, não ao “certo ou errado” (“bom ou mau”).
Já a normatividade do pensamento prático se refere ao valor moral do conteúdo. O pensamento prático subentende também a liberdade (a autonomia do indivíduo para escolher entre dois valores opostos), mas isso já é outro assunto.
No dia-a-dia os dois tipos de pensamento funcionam juntos, como se fossem um só, isto é, ao mesmo tempo em que decidimos se algo é verdadeiro ou falso julgamos se é certo ou errado, mas compreender a diferença entre os dois mecanismos é o que nos distingue do pensamento primitivo.
Essa distinção entre pensamento puro e pensamento prático se expressa ideologicamente no mundo moderno pela diferença entre pensamento científico e pensamento religioso. O cientista radical quer levar às últimas conseqüências a pesquisa sobre as células-tronco, enquanto o religioso radical é contra qualquer manipulação genética. Numa simplificação talvez exagerada, podemos dizer que o cientista busca o verdadeiro, enquanto o religioso busca o bem. De fato, o religioso busca o Bem porque ele já tem a Verdade, uma vez que para ele o Bem é a Verdade. Parece, então, que se trata de duas Verdades, uma empírica, buscada pelo cientista, e outra espiritual, intuída pelo religioso. Por tudo que já vimos até agora, ao longo destes posts, existe com efeito uma única Verdade, que é a mesma buscada tanto por cientistas como por religiosos, e essa Verdade não é uma proposição (nem 2+2=4, nem Deus), mas um sentimento.
Se cientistas e religiosos têm o mesmo objetivo e, ao mesmo tempo, estão separados por uma distância tão brutal, o que os distingue? Vamos tentar mostrá-lo no próximo post.
posted by Roberto Velloso Eifler |
10:43 AM
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Roberto V. Eifler


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